Fundamentos para uma prática pedagógica

CONVITE DE CASAMENTO

 

Casamento não significa felicidade automática e garantida. Isso só acontece nos finais de novelas baratas e açucaradas, em que tentam nos convencer de que a festa, com muitos amigos, músicas pomposas e uma mesa farta, nos abre o mundo da alegria e do amor para sempre.

É preciso muito mais para uma união feliz.

 

A Informática e a Educação estão se casando... Você está convidado. O educador não pode aceitar este convite ao consórcio de forma ingênua e despreparada. Pela responsabilidade que temos junto à sociedade e a nós mesmos, nossa preparação e formação têm de trazer a esses campos a contribuição que tal proposta nos impõe. Mas como trabalhar neste novo campo com garantia de que estaremos construindo um casamento de fim de século e que deve continuar a ser feliz daqui para a frente?

Conhecer bem cada um dos pretendentes diminui em muito os riscos dos insucessos e das decepções futuras.

Conhecer a educação. Conhecer a informática. É a primeira das formas de buscar a garantia da qualidade de vida a dois. Mas quem é esta Educação que pretende se casar com a Informática? Qual é a sua história? Quais são as suas qualidades? Quais são as marcas de seu caráter? Qual é a história das tecnologias e "quais são suas intenções" (como os velhos pais perguntariam). Vem de boa família? Traz dotes?

Mesmo que falando em parábolas e fazendo uma descrição um pouco caricata da cena, ela nos ajuda a entender que o trabalho de conhecer melhor o que significa a Educação, neste fim de século, para esta sociedade brasileira, é a base segura de onde nos podemos lançar para esta aventura de casar Educação com a Informática.

O que é isto, Educação?

Parece óbvio e absurdo perguntar sobre Educação para educadores. Mas não o é. Se não se perguntasse sobre o óbvio, não haveria ciência. Foi porque Galileu Galilei questionou a obviedade maior que nos passa pelos sentidos (que o Sol gira em torno de nós) é que o homem moderno pode dar os passos que hoje vemos na Ciência. E ele foi ameaçado de morte por questionar o óbvio e propor o contrário: nós giramos em torno do sol!

Galileu não morreu por causa disso, mas teve de se esforçar muito para provar a sua teoria. Seus estudos, seus instrumentos, sua pertinácia foram acionados para trazer à ciência um importante modo de conhecer a natureza e dela se apropriar para o progresso da humanidade.

Mas de que forma nossa contribuição poderia ser como a de Galileu? Questionando e perguntando continuamente à Educação sobre o seu significado e sobre as inovações possíveis.

O que é educar?

É dar uma aula atrás da outra, separando-as por recreios?

É encantar, fazendo que alunos fiquem pendurados em curiosidades de uma aula para outra? Esperando, como após as novelas, as cenas dos próximos capítulos?

É criar delicadamente ambientes de diálogos, produção de idéias, de valorização de nobres sentimentos?

É preparar os alunos para aprenderem conteúdos que só terão validade quando prestarem, quem sabe, os vestibulares?

É saber mostrar aos jovens que a vida tem significado e que dominar os conteúdos das ciências, dos códigos da comunicação, da leitura da realidade é uma excelente forma de participar deste mundo e ser feliz?

Responder seriamente a estas questões é a forma mais segura e justa de entrarmos neste campo inovador que associa Educação e Informática. Isso porque o significado de educar muda com as mudanças das exigências sociais.

Há todos os dias novas tarefas postas à Educação.

Desemprego, isolamento das pessoas, divulgação do belo, socialização das conquistas, aproximação dos povos e das classes, democratização do lazer, preparação para o envelhecimento, lutas sociais pela preservação da cultura e identidade dos povos, denúncia das injustiças cada vez mais espalhadas, banalizadas e diluídas na sociedade... uma lista incomensurável poderia ser aqui estendida.

Sugiro mesmo que um bom exercício para começarmos nossos cursos fosse levantar aqueles problemas sociais aos quais a Educação teria de se voltar para tornar-se agente mais atuante na realidade social brasileira.

Sugerimos aqui uma atividade conjunta para todos os educadores que se lançam nesta tarefa. O início do trabalho deste grupo seria levantar os problemas humanos e sociais para os quais a Educação deveria ter voltado seus olhos e seus compromissos.

A educação sempre deve ocupar o centro das atividades humanizadoras de uma sociedade, mas, para tanto tem que se posicionar e criar os espaços. Isto é que devolverá a dignidade e o respeito da sociedade para com o nosso papel de educadores.

O que é isto, a tecnologia da Informática?

Será ela só uma caixa preta cheia de bonequinhos que dançam ou um aparelho de som com músicas futuristas e com telas cheias de gráficos coloridos e mensagens curtas?

Símbolo máximo da modernidade, ela pode parecer o passaporte para o futuro e prometer garantir nosso ingresso no mundo da qualidade total.

Não é.

Qual sua história? Para que ela nasceu? Qual o seu berço?

A Informática é uma tecnologia nascida para fazer cálculos muito rápidos, em grande quantidade.

Sua origem foi ajudar a indústria, ao comércio e principalmente à indústria bélica a fazerem seus megacálculos.

Os Estados Unidos só conseguiram lançar a bomba sobre Nagasaki porque tiveram o aporte dos computadores para fazerem os complexos cálculos exigidos pela tarefa.

Na década de 80, evoluiu para ser uma excelente gerenciadora de informações multimídia. Juntamente com a capacidade de gerenciar massas enormes de informação, ela as transporta a qualquer distância à velocidade da luz. Embora tenha nascido para fazer os cálculos de guerra e para atender as necessidades das indústrias, hoje ela evoluiu e foi apropriada por outros setores da economia. Está cada vez mais sendo apropriada pela indústria do convencimento, como as TVs, os bancos e as agências de indução ao consumo, para formar mentalidades e criar o poder da aceitação de modelos econômicos.

Na verdade, vem se transformando em um instrumento máximo de Educação.

Como assim?

As TVs comercias, com todo o seu aparato informatizado, trabalham no sentido de formar as mentalidades e os desejos para o consumo de um modo de vida e para seus valores. Seguramente, valores de consumo de individualismo, valores do tempo capitalista.

Os valores políticos do individualismo e do liberalismo são inculcados com essa tecnologia em que os meios se tornam também a própria mensagem, como defendia McLuham no início da década de 60.

Liberdade, ação e computador

Não há muita dúvida de que, depois da avalanche de tecnologias internéticas e hipertextuais, elas impõem novas categorias cognitivas e novos conceitos de exercício de política.

Todos nós somos influenciados pelas mídias eletrônicas que nos bombardeiam com novas modalidades de conhecer, perceber, memorizar e comunicar. Sendo assim, nossas reações sociais, nossas formas de participação e de organizações políticas se alteram. Algumas para melhor, nos aguçando a sensibilidade, outras nos tornando dependentes da própria linguagem da mídia e de seus símbolos.

Ora, se os meios moderníssimos de comunicação nos impingem modelos e valores, e por conseguinte nos educam, com muito mais força os educadores profissionais(como nós) devemos nos apropriar dessa tecnologias e imprimir-lhes nosso cunho educacional.

Mas que cunho educacional é este?

O da formação de valores de cidadania, de verdade, de ética, de melhor comunicação entre todos os homens, de senso de estética, da democracia, do espírito de cooperação...

O potencial da tecnologia é incontestável. Ela representa, na prática, a ampliação das capacidades humanas. Assim como as máquinas, nas indústrias têxteis, eram o prolongamento dos braços humanos, assim o computador amplifica nossas falas, nossos ouvidos, nossos olhos, nossa memória, nossa percepção. Amplia-se muito o campo de comunicação entre os homens, abrindo-lhes horizontes, diversificando centrais de informações, disseminando centros de interesse e diversidade de pontos de vista e linguagens.

Não pela qualidade intrínseca dos meios, mas pelas lutas ideológicas, políticas e educacionais que se estabelecem a partir deles.

O potencial humanizador dessa tecnologia é magnífico.

É um momento ímpar de aumentar a liberdade humana, facilitando, por meio da Educação, que todos possam se apropriar de tais tecnologias.

Mas essa tecnologia não é dócil. Para dominá-la, temos de desenvolver, como educadores, cinco habilidades básicas:

domínio dos conteúdos específicos de nossas áreas dos saber;

clareza dos problemas que estamos resolvendo;

sabedoria para trabalhar em grupo;

desenvolvimento de uma prática pedagógica reflexiva;

trabalho articulado e cooperativo com as áreas do conhecimento, como as Ciências, as artes, a Filosofia, as Matemáticas, a História...

 

NOVAS TECNOLOGIAS EM EDUCAÇÃO: MODISMO OU MUDANÇA

A sociedade contemporânea encontra-se fortemente influenciada pela presença da tecnologia. Praticamente todos os campos da ação humana envolvidos com mediadores informáticos ou telemáticos, que interferem nas relações humanas, imprimem às comunicações um caráter de interdependência e simultaneidade e levam as pessoas a imergir no mundo virtual, transformando sua visão de homem e de mundo.

Temos sede de velocidade, de aumento de produtividade, de nos comunicar instantaneamente, cada vez mais, com todos os lugares e com maior número de pessoas. Nós nos esforçamos por adquirir os melhores equipamentos do momento, os mais velozes e com maior capacidade de armazenamento das informações. Vivemos o modismo tecnológico. Queremos utilizar a tecnologia para ter acesso a qualquer parte do mundo, que nos permita tanto obter informações que possam nos ajudar a adquirir uma melhor compreensão da atualidade, quanto representar a nossa forma de ver o mundo e o nosso contexto. Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento da tecnologia permite o acesso e a seleção de informações, a interação entre as pessoas, o desenvolvimento de novos conhecimentos, provocando maior emancipação do homem, paradoxalmente, gera novas formas de manipulação da Ciência, dos homens e das entidades sociais. Assim, a tecnologia propicia o desenvolvimento de novos meios de manipulação que podem ser empregados tanto para a libertação e emancipação do homem, quanto para sua dominação. Como assinala Linard: "fazem-se máquinas a serviço do homem e põem-se os homens a serviço das máquinas. E, finalmente, vê-se muito bem como o homem é manipulado pela máquina e para a máquina, que manipula as coisas a fim de libertá-lo"(Linard, 1990:109)². Cabe a nós optar se queremos empregar a tecnologia para a emancipação ou para a dominação humana.

Ambientes do conhecimento

Para que as novas tecnologias, especialmente o computador e a telemática, sejam empregadas como instrumentos de emancipação do homem, a relação homem-máquina deve se estabelecer em um ambiente onde o conhecimento é considerado em sua multidimensionalidade - o homem é o ser que se coloca nesse ambiente em sua totalidade de sujeito crítico e criativo e as tecnologias são empregadas na resolução de problemas significativos. Procuramos, portanto, utilizar as Tecnologias como instrumentos tutorados pelo homem, estabelecendo com as mesmas uma "relação de interação-relação dinâmica entre ação e operação mental que suscita o pensamento, sem no entanto determiná-lo" (Almeida³ 1996:22).

Não queremos propor a total substituição dos espaços escolares pela comunicação em redes de comunicação a distância, mas a integração entre os distintos espaços de produção do conhecimento. O contato físico entre as pessoas é primordial e a escola é um espaço privilegiado de interação social, que precisa estar interligado e integrar-se aos demais espaços de conhecimento – promovendo a comunicação e a cooperação entre alunos, professores, pesquisadores, especialistas em áreas específicas... Juntos, eles construirão as pontes entre conhecimentos, valores, crenças, usos e costumes, favorecendo maior compreensão social. Desta forma, os espaços escolares serão redimensionados, pois as atividades educacionais se estenderão para além das paredes da sala de aula e dos muros das escolas, continuando a ocorrer em diferentes locais.

Não conseguimos ainda, porém, imaginar até onde poderão chegar as potencialidades das novas tecnologias de informação e comunicação. Não sabemos a extensão da revolução que sua utilização está provocando em termos de relações humanas, conhecimento, percepção de homem, e sociedade, de mundo e de Educação.

Concebemos a utilização das novas tecnologias em Educação como dispositivo que mediam e influenciam nossas representações e não somente com instrumentos de transmissão de informações e de respostas aos nossos objetivos. Mas não recusamos a racionalidade técnico-operatória nem as ciências exatas - ao contrário, o conhecimento sobre as potencialidades e limitações do uso das novas tecnologias em Educação nos permite utiliza-las não para nos anestesiar navegando em um universo de informações (nem para dissimular o real, a fim de aproximá-lo do ideal), mas para aprender, pensar com, pensar sobre si mesmo, pensar com o outro, pensar sobre ensinar e o aprender.

Revolução e transformação

Mas se não temos consciência da dimensão das transformações que o uso das novas tecnologias está provocando nas relações sociais, em que consistirão as mudanças que poderão provocar no meio educacional? Para Michael Crichton: "todas as grandes mudanças são como a morte. Você não pode ver o outro lado enquanto não estiver lá" (Siboldi & Salvo, 1998: 15) . Efetivamente, não sabemos todas as alterações que ocorrerão com a inserção das novas tecnologias na Educação.

Temos consciência de que não podemos nos deter aos processos instrutivos propiciados pelas novas tecnologias, embora o que observamos com maior freqüência seja o seu emprego apenas como uma nova mídia para fazer o ensino, sem avançar em termos de questionamentos sobre o processo educacional e a possível mudança de paradigma.

Errar, compreender e superar

Consideramos necessário aprofundar o conhecimento sobre uso das novas tecnologias, ou seja, utilizá-las na prática pedagógica, visando não apenas observar, descrever e interpretar como ocorrem tais ações. Mas, principalmente, refletir durante toda ação, ou seja, analisá-las segundo o que temos denominado de reflexão na ação e sobre a ação (Shön, 1991), em busca de melhor compreendê-las e depurá-las continuamente.

Dessa forma, estaremos colaborando com uma transformação do processo educacional, caminhando no sentido de um novo paradigma, no qual o erro deixa de ser objeto de punição e converter-se em algo útil para a compreensão e superação das dificuldades. Professores e alunos, ambos sujeitos de aprendizagem, atuam em parceria na busca, seleção e articulação entre informações significativas para integrá-las com conhecimentos já adquiridos na construção ou reconstrução de conhecimentos. E a ética e a estética são enfatizadas em atividades que resgatam os valores humanos na análise dos problemas emergentes no contexto.

As mudanças provocadas pela incorporação das novas tecnologias ao processo ensino-aprendizagem já fazem parte da maioria dos discursos didáticos, mas na ação pedagógica poucas mudanças são observadas, uma vez que não estamos nos referindo ao uso das novas tecnologias apenas como mais um meio de apoio didático ao professor, mas sim de uma postura muito além de transmissor do saber instituído. Não se trata apenas de adotar um novo método ou uma nova técnica de ensino, na qual tudo muda superficialmente, mas tudo permanece igual na essência . Estamos nos referindo a novas estratégias e metodologias de investigação, de ação e de formação, que levam os educadores – investigadores da própria ação – a questionar a si mesmos, a sua prática e a sua escola, sistema educacional e a sociedade.

A formação está e acontece na ação

Trata-se de uma atuação crítico-reflexiva, em que o professor é parceiro dos alunos na construção cooperativa do conhecimento, promove-lhes a fala e o questionamento, analisa seus interesses e suas necessidades, considera o conhecimento que o aluno traz da sua realidade, identificado os temas emergentes no contexto e atua a partir dos mesmos para favorecer a construção de um saber científico significativo (Almeida, 1996).

Tecnologia e reflexão

O professor não caminha à frente do aluno, mas junto com ele, promovendo sua aprendizagem, fazendo intervenções segundo o seu estilo de pensamento, questionando-o para desestabilizar as certezas inadequadas incitando-o a buscar informações em diferentes fontes ou, quando necessário fornecendo-lhes as informações demandadas pela situação, ajudando-o a encontrar por si próprio a resposta para sua questão ou situação-problema.

Para assumir essa perspectiva em que a prática pedagógica com o uso das novas tecnologias é concebida como um processo de reflexão-ação, o professor precisa ser capacitado para dominar os recursos tecnológicos, elaborar atividades de aplicação desses recursos escolhendo os mais adequados aos objetivos pedagógicos, analisar os fundamentos dessa prática e as respectivas conseqüências produzidas em seus alunos.

Ao assumir essa postura, o professor toma consciência de sua prática, analisa as conseqüências de suas intervenções, empregando teorias educacionais e conhecimentos específicos para compreender a situação criada na aula, bem como as atitudes manifestadas pelos alunos, criando estratégias flexíveis e adequadas ao momento.

Concordando com Nóvoa, consideramos que "formação não é qualquer coisa prévia à ação, mas que está e acontece na ação"(Almeida, 1996:56), ou seja, as ações de formação de professores para o uso pedagógico do computador segundo uma perspectiva crítico-reflexiva, são contextualizadas no locus educacional.

Trata-se de uma formação contínua, na qual formadores e formados participam de um processo de formação-ação coletiva, cuja tônica é o desenvolvimento de projetos cooperativos. Todos são aprendizes em contínua interação, trocando experiências e ajudando-se mutuamente, aprendendo em ação, com a reflexão e depuração que se desenvolve antes, durante e após a ação. Estabelece-se uma "praxis contextualizada",

Cujas "freqüências das interações e comunicações são indicadores de mudanças gestadas nas escolas", conforme ressalta Imbernón(1998:96,97).

Quanto maior a participação do corpo de educadores da escola nessa formação contínua, compreendendo tanto o envolvimento dos professores quanto as lideranças educacionais; e quanto maior o nível de colaboração, participação e articulação entre todos os envolvidos nas decisões sobre o currículo e a gestão da formação, maior será a possibilidade de sucesso da integração do computador na prática pedagógica, segundo uma perspectiva de transformação do processo educacional.

Bibliografia:

Coleção Informática para mudança na Educação

Aprender Construindo

A informática se transformando com os professores

Fernando José de Almeida

Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida